REDE DE ILUSÕES

Quando as redes sociais se tornam um perverso instrumento para tornar real uma realidade fictícia

Iris Azi

Entre emojis felizes, sequências intermináveis de kkk’s e hashtags positivas, qual é a sua real expressão por trás da tela? Certo dia, distraída, estava passando o dedo pela timeline do meu Instagram e acabei me dando conta de que só tem gente feliz nesse mundo. De uma hora pra outra, todos os problemas cotidianos se esvaíram, as preocupações evaporaram e o estresse do dia-a-dia cedeu lugar a sorrisos fartos, bocas abertas, olhares expressivos e cheios de vida que pararam dois segundos para serem registrados através da lente de uma câmera. E eu não estou falando de fotos de amigos que estão em viagens, passando temporada fora, descansando ou de férias, que teriam motivos de sobra para esbanjar felicidade e um estado de espírito positivo. Ao repetir a experiência nos três dias seguintes, não só no Instagram, como também no Facebook, constatei que redes sociais transformaram a rotina de todo mundo num desfile diário de realização pessoal e sucessivos momentos de felicidade. Mas será isso tudo real?

Num mundo ficcional, sim. Essa felicidade plena e ininterrupta poderia ser real. Lembra até os musicais da Disney, não acha? Mas no plano da realidade, não. As redes sociais e os blogs abriram caminho para uma perigosa prática de viver de ilusão, de mostrar aquilo que não somos. Numa feira de vaidades online, ganha aquele cuja felicidade recebe mais curtidas e comentários. É um universo paralelo onde todo mundo está feliz em absolutamente todos os momentos da vida, seja no setor pessoal, profissional, familiar ou afetivo. Toda aventura termina em êxito, todo empreendimento dá certo, ninguém nunca erra e o sucesso é comemorado dia-a-dia. Era uma vez aquela história de altos e baixos… Aqui, rasga-se Nelson Rodrigues e queima-se Victor Hugo: não há lugar para realismo, drama ou melancolia.

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Com tanta felicidade artificial, alguma coisa no plano do real poderia dar errado. E deu! Tanto quem posta quanto quem acompanha momentos excessivos e claramente artificiais de felicidade acabam sofrendo danos psicológicos que levam a quadros graves, como a depressão. De acordo com a pesquisadora alemã Hanna Krasnova, da Universidade de Humboldt, em um estudo publicado sobre o Facebook, “Você recebe sinais mais explícitos e implícitos de pessoas felizes, ricas e bem-sucedidas de uma foto que a partir de uma atualização de status. A foto pode ser muito poderosa e provocar comparação social imediata, e que pode desencadear sentimentos de inferioridade. Você não inveja uma notícia.”  Tudo isso, segundo a pesquisadora, cria um ciclo vicioso que atinge todo mundo, uma vez que “a autopromoção dispara, e o mundo das mídias sociais fica mais e mais longe da realidade.”, pontua.

A autoafirmação sempre foi um fator que estimula o paradoxo em muitos indivíduos e é bom não cair nessa armadilha, estando on ou offline. Ser uma mulher segura de si é saber que na vida há perrengues pelos quais todo ser humano passa e, cá pra nós, são eles que tornam a vida cada vez mais desafiadora e divertida, não é? Imagina só o tédio de estar num mundo com todo mundo sorrindo e tirando selfies felizes, sem desafios para superar e razões para seguir em frente e buscar superar mais e mais limites?

A beleza da felicidade está justamente no fato dela ser momentânea, e não há nada de errado em extrair dela uma lembrança, como uma foto para compartilhar com os entes queridos. Já compartilhar uma felicidade que só existe em nossa cabeça é chato, depressivo e não nos dá razão nenhuma para buscar os momentos felizes de verdade, através de muito trabalho, suor e força de vontade, pois quando esta real felicidade chegar, teremos a certeza de que é real, e não um artifício a ser jogado numa rede de ilusões.

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