DEUS NÃO FAZ ACEPÇÃO DE PESSOAS

“Então,falou Pedro, dizendo: Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas; pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável” (Atos10.34,35).

Por Luciano Santos Santana[1]

 

É sabido que a religião, desde a Antiguidade, tem regido as sociedades, definindo normas e influenciando pensamentos e comportamentos dos indivíduos.Se por um lado, a religião tem o poder de reunir pessoas, transmitir valores éticos e morais, criar vínculos de solidariedade e renovar a fé e a esperança para que outros superem as adversidades da vida, por outro, a religião pode se tornar responsável por limitar a liberdade dos indivíduos mediante a imposição de dogmas, e, ao invés de ter um caráter inclusivo, ela se torna contraditória em seus discursos e práticas, tornando-se um elemento de exclusão.

Não podemos negar que na Bíblia encontramos situações de inclusão como também situações de exclusão. O que difere entre eles é que a inclusão faz parte do propósito e da natureza de Deus, enquanto que a exclusão é um ato totalmente humano. No Antigo Testamento, é possível perceber em muitos textos, o cuidado de Deus para com o pobre, a viúva, o órfão e ao estrangeiro, pois estes eram vítimas do esquecimento, do abandono e da exclusãosocial (Deuteronômio 24.17; Isaías 1.17).

No Novo Testamento, encontramos situações semelhantes. Jesus jantou na casa de um publicano chamado Levi (Lucas 5.27-32). O publicano era o judeu que prestava serviço ao império romano, cobrando os impostos dos cidadãos. Para a sociedade judaica, esse “funcionário romano” era visto como um traidor. Jesus, além de entrar na casa de um deles, que já era um absurdo para a religião judaica, ainda senta à mesa para jantar com Levi e com outros publicanos. Atitude como essa era inconcebível para aquela sociedade, um rabino como Jesus sentar ao lado dos “pecadores”; era dessa forma que os publicanos eram vistos, e para o Judaísmoeles não eram merecedores do amor e da misericórdia de Deus.

Outro exemplo de situação de inclusão/exclusão encontramos no relato do encontro de Jesus com a mulher samaritana (João 4.1-30). A relação entre os judeus e samaritanos era muito difícil e marcada pela rivalidade e intolerância. O motivo para essa relação tensa entre eles era por questões sociais, políticas e principalmente religiosas. Jesus estava em percurso, deixou a Judéia e estava se dirigindo para a Galiléia, e Samaria ficava justamente entre essas duas regiões; um detalhe importante é que o caminho percorrido por Jesus era o mais rápido para chegar ao seu destino. Se fosse outro judeu, teria como atitude normal desviar-sedo caminho e percorrer um trajeto mais longo como muitos fizeram, para evitar qualquer tipo de contato. Jesus preferiu atravessar o caminho mais curto, passar por Samaria, e no trajeto se depara com uma mulher samaritana; aquela mulher tinha dois elementos que faziam dela uma pessoa vítima de exclusão social: primeiro, por ser mulher; e segundo por ser uma samaritana (gênero e raça). No relato, Jesus não apenas passou por Samaria, mas conversou com aquela mulher e ainda lhe pediu água para beber.

Esses e outros textos reforçam a idéia de que a exclusão é uma atitude da natureza humana, enquanto a inclusão faz parte do propósito divino. Jesus, enquanto esteve aqui na terra, era questionado pelos líderes religiosos de sua época o porque que Ele estava sempre com àqueles que eram considerados como “pecadores”, que estavam à margem da sociedade. Aqueles líderes religiosos não entendiam que Jesus era movido pelo amor e pela compaixão, enquanto que eles eram movidos pela imposição, pelo controle e pela dominação. Enquanto que o fardo de Jesus era suave e leve (Mateus 11.30) o fardo dos líderes do Judaísmo era pesado. É nesse contexto do fardo das imposições praticadas pelos fariseus que Jesus fez a seguinte declaração: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei; porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mateus 11.28,30).

O convite de Jesus é totalmente inclusivo. Os versículos que acompanham o título desse artigo (Atos 10.34,35) reafirmam esse princípio; tais palavras foram declararas por Pedro, um dos discípulos de Jesus, fruto de sua experiência. Apesar de ter caminhado com o Mestre, de ter aprendido com Ele, Pedro tinha certa resistência, pois se encontrava refém do fundamentalismo do judaísmo.Esse episódio narra que Pedro foi levado a entrar na casa de um oficial romano, quepara o judeu era uma profanação entrar na casa de um estrangeiro. Diante do que Pedro ouviu daquele oficial romano, ele reconheceu que Deus, não fazia acepção de pessoas, que trata a todos e todas da mesma maneira, com o mesmo amor, sem parcialidades. E Pedro, o fundamentalista, ainda afirma que todo aquele de qualquer nação, que teme a Deus e faz o que é justo, ele e ela são aceitáveis diante de Deus.

Observa-se nessa declaração a expressão “todo aquele”. Isso inclui todos e todas, de qualquer povo, língua ou nação; inclui heterossexuais, gays, lésbicas, travestis e transexuais. Não é somente o heterossexual que teme a Deus ou faz o que é justo.Há homossexuais que são mais tementes a Deus e faz o que é correto do que alguns heterossexuais e vice-versa.

Diante dessa abordagem entendemos que Deus ama a todos e todas incondicionalmente.  Partindo desse princípio do amor de Deus, que algumas comunidades cristãs, abraçam e defendem a Teologia Inclusiva. Essas comunidades são conhecidas como “comunidades inclusivas” onde todos e todas podem ser cristãos e cristãs independente de sexo, gênero, identidade de gênero, orientação sexual, raça/etnia, condição social/econômica. Deus ama você! Você é aceitável diante d’Ele.

 

 

 

[1] Teólogo, aluno especial do Mestrado em Estudo de Gênero e Sexualidades (UFBA), pastor da Comunidade Cristã Inclusiva (COCIS).

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