A MULHER ADÚLTERA E DILMA ROUSSEFF: O QUE ELAS TÊM EM COMUM?

“Aquele que dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro que lhe atire pedra” (João 8.7).

“Aquele que dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro que lhe atire pedra” (João 8.7).

 

Luciano S. Santana[1]

 

Nos últimos meses, temos acompanhado os acontecimentos no cenário político nacional que resultou no afastamento temporário da Presidente da República Dilma Rousseff, causando inúmeras manifestações e insatisfações na sociedade brasileira, dividindo-a em dois grupos: o grupo dos que são contra e o grupo dos que são a favor ao impeachment. Quero deixar claro que o meu objetivo aqui não é declarar-me a favor ou contra o PT, especialmente o governo de Dilma Rousseff ou de qualquer outro partido político. Meu objetivo é fazer uma reflexão desses acontecimentos que tem mobilizado não somente os políticos responsáveis pelo processo de impeachment, mas toda sociedade brasileira.

Tive a liberdade de utilizar um versículo da Bíblia para desenvolver esta escrita. Muitos devem questionar qual a relação entre esse versículo com situação política do Brasil, ou, especificamente, com o afastamento da Presidenta. O texto citado estáno Evangelho de João capítulo oito, que narra a história de uma mulher que foi surpreendida em adultério (8.3). Conforme a narrativa, os líderes religiosos daquela sociedade judaica, procuraram uma maneira de acusar Jesus mediante um vacilo que ele viesse a cometer.Na verdade, diante desse cenário, podemos perceber que os escribas e fariseus armaram uma situação para surpreender Jesus, e, a forma que eles encontraram, foi levar a mulher à Ele para que este pudesse apresentar o seu parecer, ou seja, o seu julgamento diante daquele fato que era considerado crime.

O interessante é que os escribas e fariseus estavam tão dispostos em “queimar o filme” de Jesus que eles o pressionaram, utilizando como pretexto a “Lei de Moisés” para que a morte daquela mulher por apedrejamento fosse autorizada. Os escribas e fariseus estavam na expectativa do parecer de Jesus; se ele fosse favorável em apedrejá-la, Jesus teria problema com o império romano, pois, somente Roma poderia autorizar e executar a punição; se Jesus não fosse favorável ao apedrejamento, ele seria considerado pela liderança judaica um indivíduo insubordinado à Lei. Portanto, nessas duas situações, Jesus seria acusado, em outras palavras, não teria saída para Ele.

Percebendo Jesus que eles insistiam e aguardavam pelo seu posicionamento, responde: “Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra” (8.7). É justamente neste versículo que temos o ponto em comum entre a narrativa da mulher adúltera e Dilma Rousseff. Diante da resposta de Jesus, o texto informa que aqueles acusadores saíram todos, um por um, “acusados pela própria consciência” (8.9). Conforme a Lei de Moisés, registrado em Levítico 20.10 dizia o seguinte: “Se um homem adulterar com a mulher do seu próximo será morto o adúltero e a adúltera”. Como podemos perceber em toda narrativa, somente a mulher foi levada para ser condenada. E o homem? Onde estava? Afinal, a mulher não tinha adulterado sozinha. Como se tratava de uma figura feminina, dentro daquela cultura era impossível de se livrar da condenação. E aqui percebemos que também envolve a questão de gênero.

Há outro detalhe importante: aqueles escribas e fariseus não apedrejaram aquela mulher, porque Jesus os confrontou, mostrando-lhes que eles, que a acusavam de adultério, estavam na situação pior daquela mulher, ou seja, eles estavam adulterando a Lei; aquela condenação era improcedente, sem respaldo legal. Para que aquela condenação tivesse validade legal, o homem e a mulher deveriam ser levados a julgamento.

Diante deste fato, percebe-se o tamanho da incoerência que estamos vendo diariamente na política brasileira. Como disse inicialmente, meu propósito nesse texto não é defender político e nem partido, mas, refletir sobre as atitudes que estão sendo levadas em consideração. Observo que o mesmo falso moralismo praticado pelos escribas e fariseus nos tempos de Jesus, é o mesmo falso moralismo praticado pelos nossos políticos; os que mais acusam a Presidente de crime, boa parte deles estão envolvidos em corrupção e sendo investigados. Ao assumir a Presidência da República, Michel Temer nomeou os seus ministros, sendo que, sete deles, estão sendo investigados por corrupção; em um mês de governo, três dos seus ministros pediram demissão dos seus cargos. O interessante é que os que mais acusam a Presidente, que envolve também o fato de ser mulher, são os que mais estão envolvidos em corrupção, os que adulteram a Lei. Pergunta-se: são dois pesos e duas medidas? Que moral eles têm de acusar uma Presidente de crime, se eles mesmos comentem crimes iguais ou piores?

Da mesma forma que aqueles escribas e fariseus tinham os seus interesses pessoais e políticos para condenar aquela mulher, o que se percebe é que também há um jogo também de interesses pessoais e políticos na condenação da Dilma. Por que a Lei só serve para uns e para outros não? Como diz o trecho da música cantada pela Legião Urbana: “Nas favelas, no Senado, sujeira pra todo lado; ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação”.

 

 

 

[1] Teólogo, professor, aluno especial do Mestrado em Estudo de Gênero e Sexualidade (UFBA), pastor da Comunidade Cristã Inclusiva do Salvador (COCIS).

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.

*